Â鶹ÊÓƵ

Em nome das Eunices do Brasil!

Publicada em 08/03/2025

8 de março de 2025 – mais um dia internacional da luta das mulheres por igualdade de direitos. Escolhemos homenagear Eunice Paiva. Quem é essa mulher? Símbolo da resistência e da resiliência femininas, que ainda está aqui, por causa de sua delicadeza combativa contra a ditadura militar brasileira.

Sua história ganhou mundo. Eunice foi representada pelas atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, no filme Ainda estou aqui, dirigido pelo cineasta Walter Salles, baseado no livro de seu filho, Marcelo Rubens Paiva. O longa ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano, além de outros 50 prêmios, ao narrar o desafio de Eunice em manter sua família unida e em segurança, seguindo a vida, após o desaparecimento do marido durante o regime autoritário.

Essa mulher, que viveu a dureza da ditadura com a coragem de nunca se calar, mesmo que mergulhada na potência do silêncio, representa todas as Eunices do Brasil e suas trajetórias de lutas, resistência política e atuações em defesa dos direitos humanos. “Uma força que nos alerta/Quem traz na pele essa marca possui/A estranha mania de ter fé na vida”!

Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva
Eunice foi figura central na busca por informações sobre o paradeiro de seu marido, o deputado Rubens Paiva, desaparecido depois de ter sido preso, torturado e assassinado nos porões do DOI-CODI do Rio de Janeiro, em janeiro de 1971.

Eunice também foi levada com sua filha Eliana, então com 15 anos. Eliana ficou no quartel por 24 horas e Eunice permaneceu presa por 12 dias, as duas sendo interrogadas sobre as atividades políticas de seu pai e marido. Libertadas, Eunice passou a exigir a verdade sobre Rubens. De posse da informação de que ele havia sido assassinado, reivindicou o reconhecimento de sua morte e a revelação de onde seu corpo estaria enterrado, o que jamais descobriu.

Eunice cresceu no bairro do Brás, em São Paulo, em família de origem italiana. Sempre cultivou o gosto pela leitura e por isso brigou com o pai pelo direito de estudar. Aos 18 anos, passou em primeiro lugar no vestibular para Letras na Universidade Mackenzie. Foi amiga de grandes escritores, como Lygia Fagundes Telles, Antonio Callado e Haroldo de Campos.

Casada com o deputado federal Rubens Paiva, mãe de Vera, Maria Eliana, Ana Lúcia, Maria Beatriz e Marcelo, Eunice é a tradução de um Brasil historicamente engrandecido por retratos da dignidade e da força femininas – Eunices e Marias que sabem sentir a ausência e a violência próprias do “horror elíptico” que caracteriza a nossa história.

Em 1973, Eunice ingressou novamente na Mackenzie, para estudar Direito. Tornou-se advogada respeitada e se engajou em lutas sociais e políticas. Combateu a política indigenista do regime até o final da ditadura, tornando-se uma das poucas especialistas em direito indígena do país.

Ao lado de outros parceiros, fundou, em 1987, o Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (IAMA), ONG que atuou até 2001 na defesa e autonomia dos povos indígenas. Em 1988, foi consultora da Assembleia Nacional Constituinte, na escrita da Constituição Federal Cidadã.

Foi uma das principais forças de pressão que culminou com a promulgação da Lei 9.140/95, que reconhece como mortas as pessoas desaparecidas em razão de participação em atividades políticas durante a ditadura militar. Em 1996, passados 25 anos de luta por memória, verdade e justiça, Eunice conseguiu que o Estado brasileiro emitisse oficialmente o atestado de óbito de Rubens Paiva.

A Comissão Nacional da Verdade, criada em 2012, elaborou relatório que buscava responder às famílias dos desaparecidos. Segundo apurou a Comissão, Rubens Paiva foi torturado de forma “extremamente violenta”, que “pode ter sido a causa principal da morte”, o que só se tornou público em 2014.

Nos arquivos da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, é possível de Eunice Paiva ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, na qual relata as circunstâncias da invasão de sua residência, bem como da prisão arbitrária e desaparecimento de seu marido, requerindo investigações acerca do caso.

Eunice Paiva faleceu em 13 de dezembro de 2018, aos 86 anos, apenas quatro anos após ter recebido a resposta oficial do que acontecera a Rubens Paiva. Coincidentemente, ela partiu na data que marcou os 50 anos da promulgação do Ato Â鶹ÊÓƵ Número 5 (AI-5), considerado o mais violento da ditadura militar brasileira.

Nos seus últimos 14 anos de vida, Eunice lutou contra o Alzheimer. A doença que corroi memórias acomete a mulher que sempre lutou contra o esquecimento. Mas nenhuma batalha é em vão: sua filha Vera, professora de Psicologia na USP, trabalha desde 2014 na Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, da qual Eunice fez parte, em 1996.

Em entrevista à Folha de S.Paulo (2 de março, 2025), Vera relembra que, embora sua mãe tenha recebido o relato sobre a morte de Rubens em julho de 1971, ela assumiu a morte do marido somente ao receber, em 1996, . “A gente evitava falar no assunto também, para ela não sofrer mais. Era um pacto de silêncio para que a gente tocasse a vida que ainda tinha pela frente.